Lifewide Learners #2 – A metade da vida adulta: entre a agência e o acaso
Fiz 55 anos em agosto. E, por algum motivo, desta vez senti o ímpeto de parar e pensar nesse marco.
Ainda este ano, fui chamado por uma revista para comentar sobre lifelong learning e oportunidades de trabalho para o público 50+. Minha desconexão com a idade é tamanha que, no meio da entrevista, percebi que eu estava tratando esse grupo como “eles” em vez de “nós”.
O fato é que fiz 55 anos em agosto. E, por algum motivo, desta vez algo me pediu pausa: senti o ímpeto de parar e pensar neste marco.
Nunca me preocupei muito com minha idade. Abri a primeira empresa ainda na faculdade e, para mim, esse papel de empreendedor/consultor sempre veio atrelado a um jeito atemporal de interagir com o mundo. Talvez por isso, sempre me identifiquei com o conceito dos perennials, proposto pela publicitária Gina Pell. Em uma matéria na revista Vogue, ela definiu esse termo assim: “São pessoas movidas pela curiosidade, com a cabeça aberta, que nunca param de aprender e recomeçar, se for preciso. Elas não veem a vida como uma linha do tempo, mas como uma rede de conexões e experiências”.
No início, achei que a necessidade de parar e refletir tinha a ver com o fato de eu ter atingido um marco que já devo ter mencionado em mais de uma centena de vezes nas minhas palestras: a metade da vida adulta. Tomei esse conceito, que é diferente da ideia de metade da vida, da professora Lynda Gratton, autora do livro A 100-year life (A vida de 100 anos). Ela explica que, à medida que a expectativa de vida se estende, infância e juventude continuam ocupando o mesmo espaço – é a vida adulta que se alonga. Por isso, faz sentido falar em “metade da vida adulta”.
Sempre citei essa lógica com entusiasmo, mas desta vez ele pareceu me olhar de volta: e agora, o que faço com essa metade que começa?
Quase dois meses depois do meu aniversário, decidi escrever este texto para retomar minha inquietação. Confesso que comecei sem saber exatamente o que estaria aqui. Apostei que a escrita me ajudaria a entender. E ajudou.
Estar na suposta metade da vida adulta permite uma postura verdadeiramente ambidestra. Por um lado, é possível olhar para meu percurso até aqui, admirá-lo e aprender com ele.
Mesmo reconhecendo os erros pelo caminho, tenho orgulho da minha jornada. Empreendi jovem e criei organizações das quais me orgulho. Talvez tenha deixado o trabalho ter um papel mais central na minha vida do que deveria. Mas, ao longo do caminho, fiz mestrado, casei, toquei em shows, fiz doutorado, tive filhos, escrevi meus livros e vi meu pai partir. Muitas viagens, sempre.
Por outro lado, há a perspectiva futura. E, com ela, uma vantagem: poder fazer escolhas a partir do que já vivi e, especialmente, do que quero viver.
Com o passar dos dias – este artigo demorou algumas semanas para ser escrito –, comecei a perceber o vínculo entre essa nova “atenção etária” e o livro Aprendizado Incidental, que lancei em junho. Destaque para o conceito de agência.
Agência humana é o termo que o psicólogo canadense Albert Bandura usou para descrever algo simples mas profundo: não somos espectadores do mundo, somos protagonistas ativos das nossas experiências. Ou seja, somos seres ambiciosos e proativos, capazes de antecipar e moldar o futuro por meio das nossas ações.
Sei que essa definição parece autoajuda simplista, mas prometo que ela contém algumas décadas de pesquisa de um dos maiores psicólogos cognitivistas do mundo. Vivendo isso na prática, fica claro que muitas ocorrências da nossa vida são resultados das escolhas que fizemos, a partir do contexto em que vivemos. Parar para analisar o caminho percorrido facilita a compreensão das relações de causa e efeito entre nossas ações (ou inações) e nossos resultados.
Ao mesmo tempo, fica explícito outro aspecto da teoria de Bandura (e frase inicial do livro): “O acaso favorece os aventureiros”. Por mais que eu tenha sido o responsável direto pelos percalços e sucessos da minha vida, é inegável o papel da aleatoriedade nela.
Só conheci meus sócios porque não entrei na faculdade que queria logo que me formei. Tive que esperar o vestibular do meio do ano e nós três frequentamos a mesma sala. Sem esse encontro, minha vida profissional poderia tomar um rumo diferente e eu não casaria com a Dani. Ela era cliente, nos conhecemos no trabalho – e o resto foi consequência.
Há ainda o inegável privilégio de ter nascido na minha família – considerando valores, harmonia, classe social e oportunidades que me foram oferecidas desde sempre.
Percebo que minha grande reflexão está nessa aparente contradição entre a agência humana, nossa capacidade de tomar decisões conscientes e intencionais, e o fato de que o acaso tem papel igualmente preponderante em nossa vida.
Sei que não há incoerência em perceber que esses dois movimentos coexistem em equilíbrio. Parte do que somos e fazemos é fruto das nossas ações diretas, aquelas que escolhemos deliberadamente. Outra parte, a do acaso, vem das escolhas que fazemos para aumentar nossa exposição ao inesperado.
Nos dois casos, são nossas decisões que definem, direta ou indiretamente, parte do nosso destino. Portanto, o que esse aniversário trouxe foi uma maior consciência da importância das escolhas – grandes ou pequenas – no meu cotidiano: como ocupar meu tempo? Que tipo de projeto quero fazer no trabalho? Com quem quero passar horas conversando?
Mais do que preocupação com a finitude, meu olhar está vinculado às possibilidades que se apresentam e se apresentarão para mim nessas muitas décadas que ainda tenho pela frente. Percebo que minha busca é por mais sabedoria para tomar as decisões, serenidade para saber que não controlo tudo, e confiança para compreender que meus erros (que serão diversos) podem ser aberturas para oportunidades inimagináveis.
E, entre as principais reflexões, está ficando cada vez mais claro que, de alguma forma, estamos sempre começando. Que bom.
PS sobre o uso da IA: não consigo mais imaginar meu trabalho na nōvi sem um uso intensivo de inteligência artificial – especialmente na análise de dados qualitativos, nas reuniões de cocriação e na revisão de textos. Nos meus livros e artigos, costumo usá-la como um leitor extra: alguém que lê comigo, faz críticas, dá sugestões e aponta possíveis ajustes. Escrevo isso porque, tanto aqui quanto no corpo do artigo, você vai notar meu hábito de usar travessões. Como sei que isso virou uma suposta “prova” de escrita por IA, deixo registrada minha defesa: sou eu quem escreve – e sigo defendendo meu direito inalienável de usar travessões 🙂.
CEP+R
→ Conteúdo
Dicas de conteúdos, ferramentas e maneiras interessantes de integrar novos conhecimentos aos seus.
A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir um aumento, de Georges Perec, é um dos livros mais inusitados que já li sobre... tudo. Perec parte de uma situação banal (pedir um aumento) e transforma isso num labirinto mental sobre linguagem, rotina e poder. É impossível não se ver nesse espiral de racionalizações e travas que ele cria. Um lembrete de como o cotidiano pode ser o cenário mais fértil pro aprendizado, se a gente prestar atenção.
→ Experiência
Caminhos interessantes para ganhar repertório e praticar o seu aprendizado.
Converse com alguém muito mais novo e com alguém muito mais velho que você. Parece simples, mas raramente fazemos isso de verdade. Conversas intergeracionais desafiam certezas, expõem lacunas e revelam pontos cegos no trabalho, na vida e na forma como aprendemos. É um exercício de escuta e empatia, além de uma forma prática de experimentar o que o lifewide learning tem de mais bonito: aprender com a diferença.
→ Pessoa + Rede
Como aprender e ampliar sua visão de mundo a partir de outros olhares.
Professora da London Business School e uma das maiores referências quando o assunto é futuro do trabalho, Lynda Gratton tem escrito (e vivido) o que significa equilibrar tecnologia, longevidade e humanidade no ambiente corporativo. Suas reflexões ajudam a conectar aprendizado com propósito e desenho de futuro — sempre com um olhar sistêmico e profundamente humano.
Reserve seu exemplar de Aprendizado incidental: o poder do lifewide learning.





